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Natal é amor

Martha Medeiros

Uma das coisas mais aflitivas para um colunista é escrever sobre o Natal. Por quê? Porque não há tanto assim a dizer sobre Natal, não é um assunto que estimule a imaginação, que permita desenvolver um novo enfoque a respeito, não é um acontecimento que surpreenda. Nada é menos surpreendente do que o Natal. E a repetição instituída, a paz louvada anualmente, a certeza de que o mundo pode explodir lá fora, mas o Natal estará a salvo, assim como o jingle bell, a árvore enfeitada com bolinhas, o peru, os presentes, a missa do galo e o ho-ho-ho do Papai Noel. Pode um colunista corromper essa felicidade? Pode, mas não deveria.

Essa introdução não é para recomendar que tirem as crianças da sala. Não vou corromper nada, mas é bem verdade que pretendo falar de amor de um jeito enviesado. Vou comentar sobre o papel do Natal nas separações, ainda mais agora que o divórcio ficou facilitado por lei.

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Lembro que uma amiga minha e o marido decidiram se separar numa linda noite estrelada de novembro, e a primeira providência foi manter tudo corno esta até que passasse o Natal. Bem pensado. Não havia razão para entristecer as crianças na véspera de uma data tão significativa. Natal é amor e família reunida, por que estragar o encanto? Tiveram sua noite feliz. Felicíssima.

Em agosto passado uma outra amiga me confidenciou que estava se divorciando. Lamentei por eles, ofereci ombro, aquela coisa toda, e ai ela me contou que iriam esperar passar o Natal para contar ao filho e se separarem de fato. Espera ai: seriam quatro meses até o Natal. E o filho tem 19 anos.

Fiquei pensando que essa história de “esperar o Natal” é o último prazo para mudar de ideia. Separar-se é urna atitude tão radical, tão difícil e tão protelada, que o Natal virou uma saída: o casal põe os pingos rios is, diz que nunca mais, que terminou, porém, sem certeza absoluta do que está fazendo, estabelece que a separação, por enquanto, vai ficar secreta, até que a passagem do Natal libere cada um para seguir nova vida. Até lá, serão diplomáticos e honrarão as aparências, ou seja: para que os filhos não reparem, continuarão a dormir no mesmo quarto e a ser gentis um com o outro. E descobrem-se gentis como nunca foram.

Não duvide: em abril algum casal sentará na sala para ter aquela conversa difícil e definitiva, e depois de pesarem prós e contras, fazerem acusações mútuas e concluírem que não dá mais, irão dormir chorando e, no dia seguinte, avisarão parentes e amigos que o casamento acabou. Aí é só dar um tempo para procurar outro apartamento e se acostumar com a ideia. Enquanto Isso, a folhinha do calendário passará por maio, junho, julho e, chegando em agosto, ora, nada mais sensato que esperar as festas de fim de ano.

O Natal é o maior aliado dos casais indecisos.


Domingo, 20 de dezembro de 2009.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.